Sexta-Feira, 19 de Abril de 2019
Ciência e Saúde
04/02/2019 11:00:00
‘Controlar o câncer vale mais que a cura’, afirma o imuno-oncologista Daniel Tabak

O Globo/LD

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A ideia de descobrir uma cura definitiva e eternamente válida para o câncer talvez não seja o melhor modo de se lidar com a doença que, no Brasil, atingirá cerca de 600 mil pessoas neste ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Para o oncologista e hematologista Daniel Tabak, a dificuldade começa na própria definição de cura, uma vez que novos métodos de detecção podem ser capazes de encontrar células tumorais mesmo após os cinco anos em que, sem a doença, os pacientes são considerados curados. Tabak destaca que as pesquisas atuais, que apontam para a evolução da imuno-oncologia nos últimos anos, são vitais para a transformação do câncer em uma doença crônica, que permita aos indivíduos continuar com suas atividades normais ao mesmo tempo em que mantém a patologia sob controle em seus organismos.

O que significa curar o câncer hoje em dia?

Atualmente, dizemos que um período de cinco anos sem os sinais de câncer significa a cura. Isso significa a não detecção dessa doença pelos métodos atuais. Hoje esse conceito está mudando. À medida que utilizamos meios mais sensíveis, muitas vezes é possível identificar a presença de células tumorais, e não conhecemos o significado disso: as pessoas podem estar curadas e potencialmente apresentar alguma evidência de câncer que não sabemos como vai evoluir. A definição também muda se levarmos em conta a especificidade de algumas doenças — o melanoma, tipo de câncer de pele, por exemplo, pode apresentar recidivas até 15 anos depois. Essa pessoa que teve o diagnóstico 15 anos antes e que ainda tem células cancerosas pode estar levando uma vida normal hoje em dia. Posso dizer que essa está curada? Eu diria que não. Então a definição de cura é complicada.

Qual a tendência para a definição de cura do câncer ?

O que tem sido considerado mais valorizado é a relação entre o câncer e nosso sistema imune. Desde 2012, essa relação se tornou cada vez mais próxima: a Sociedade Americana de Oncologia classificou os avanços na área da imunoterapia como os mais importantes, e o Prêmio Nobel de Medicina em 2018 coroou pesquisadores nessa área ( os imunologistas James P. Allison, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, do Japão ). Nesse sentido, acredito que a cura dependa de duas coisas: a natureza do câncer e o hospedeiro que é capaz de reagir. Eu diria que atualmente a questão mais fundamental não é exatamente a cura, mas a transformação do câncer em uma doença crônica, em que os indivíduos consigam conviver normalmente com a ajuda de tratamentos acessíveis. Nesse sentido, controlar o câncer vale mais que a cura.

“Com prevenção em obesidade e exercício, haveria redução de 30% no câncer de mama” Podemos dizer que a oncologia atingiu alguma grande conquista recentemente?

O que mudou a oncologia nos últimos anos foi exatamente esta nova área chamada imuno-oncologia. Sempre reconhecemos que a relação do câncer com o sistema imunológico era fundamental, mas a gente não tinha ideia da dimensão disso. A célula tumoral é capaz de enganar nosso sistema imunológico ao criar uma espécie de escudo que prejudica sua identificação e destruição pelo nosso corpo. Diante de novas moléculas que foram identificadas recentemente, o que rendeu o Nobel a esses dois pesquisadores em 2018, esse escudo é retirado, e conseguimos destruir a célula tumoral. Isso abriu um universo enorme, e estão surgindo uma infinidade de novas moléculas capazes de fazer esse papel. Assim estamos modificando nosso sistema imunológico para criar “supercélulas” e atacar o câncer.

Mas há também efeitos colaterais, certo?

Existem entraves na administração desses novos medicamentos que não os transformam numa panaceia. De fato a imunoterapia representa um avanço muito grande, mas a gente tem que lembrar que essas drogas liberam nosso sistema imunológico. Isso vai reconhecer as células estranhas que são câncer, mas em cerca de 15% dos casos, essas reações imunológicas podem se voltar contra outras células do nosso corpo, que precisa de freios. O que estamos fazendo é retirar esses freios. Se eu for picado por um inseto, meu corpo produz uma reação inflamatória na ferida, e se retiramos todos os freios do sistema imunológico, isso pode se alastrar para o corpo inteiro. Isso também pode acontecer em um tratamento contra o câncer. Essas drogas trouxeram novos aspectos com os quais ainda estamos aprendendo a lidar.

Quais são as expectativas de a imuno-oncologia alcançar o grande público?

Esta é uma questão fundamental: o custo anual de uma dessas drogas é de aproximadamente US$ 120 mil. Temos cerca de 60 mil novos casos de câncer de pulmão e metade deles vai evoluir para um quadro avançado. Para tratar essas 30 mil pessoas com as novas drogas, gastaríamos, com cada uma delas, cerca de R$ 450 mil por ano, por um tempo indefinido. Se a gente considerar que metade dos pacientes estará viva depois de quatro anos, devemos pensar em como financiar esse cenário — e essa é uma pergunta ainda sem solução. O que se espera é que algum mecanismo seja descoberto de forma a interromper a necessidade de uso do medicamento depois de certo tempo. Essas drogas não estão disponíveis no SUS, e o que temos visto é um processo cada vez maior de judicialização da medicina, com pessoas entrando na Justiça para ter acesso a esses tratamentos dentro do sistema público ou privado. Acho que até agora não há fórmula mágica.

“O Brasil investe pouco na detecção precoce da doença e muito com tratamentos caros”

Segundo um relatório de 2018 da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, os casos no mundo aumentaram 20% nos últimos seis anos. Qual o motivo desse crescimento?

Certamente o maior causador de câncer até 2030 será a obesidade. A gente deve reconhecer o sobrepeso como uma fábrica de radicais livres e de substâncias tóxicas agressivas ao DNA. Se no início do século XX a gente tinha o cigarro como um grande causador da doença, ele está sendo substituído pela obesidade, fora a ausência de atividades físicas. Com prevenção focada nesses dois aspectos, haveria uma redução de 30% nos casos de câncer de mama, por exemplo. Precisamos investir na prevenção pensando em quanto vamos economizar no futuro. Os gastos anuais com câncer no mundo são estimados em US$1 trilhão, mas acredita-se que a cada US$ 1 bilhão investido na prevenção, são economizados US$ 100 bilhões em tratamentos.

Onde o Brasil está em relação ao combate ao câncer?

Acho que o Brasil está muito mal, mas houve algumas iniciativas aqui absolutamente incríveis, entre elas o Hospital de Amor, em Barretos, São Paulo. A pesquisa e os tratamentos dessa instituição filantrópica são de ponta, um exemplo de que essa realidade pode ser instituída no país. A situação no Brasil é a de que até gastamos, mas gastamos muito mal com relação ao câncer. Investimos pouco na detecção precoce da doença e muito com tratamentos caros para pacientes em estágio já avançado. Fora isso, temos grande dificuldade em valorizar os cuidados paliativos, e é lamentável que tenhamos um acesso restrito da população a esforços que estão além da doença. A lei dos 60 dias, por exemplo, que estipula que o tratamento deve começar no máximo 60 dias após o diagnóstico na rede, é falaciosa. Até que uma paciente de câncer de mama faça todos os procedimentos necessários, desde o reconhecimento de um nódulo até a mamografia, a biópsia e o início do tratamento, passando por diferentes unidades e tendo que esperar entre esses procedimentos, já se passaram meses.

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