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Veículos
24/03/2016 12:08:00
Com nova fábrica, Mercedes diz não querer liderança 'a qualquer preço'
Marca diz que Brasil precisa recuperar credibilidade, e diz confiar no futuro.

Auto Esporte/PCS

Mercedes-Benz 'brasileiro' chega ás lojas no próximo mês (Foto: Luciana Oliveira/G1)

A retomada da produção de carros no Brasil pela Mercedes-Benz não significa que a montadora buscará, "a qualquer preço", a liderança do mercado premium no Brasil, disse o presidente da filial, Philipp Schiemer, na inauguração da fábrica de Iracemápolis (SP), na última quinta-feira (23).

O primeiro modelo "brasileiro", o Classe C 180, chegará às lojas no mês que vem. O SUV GLA, que será o segundo produto da linha, deve começar a ser feito no 2º semestre.

"Sempre se quer ser líder, mas não a qualquer custo. É fácil: eu abaixo os preços e vendo mais do que a concorrência. Mas queremos a liderança com rentabilidade. Se isso não for possível, não é o fim do mundo", afirmou.

Em 2015, a marca alemã ficou atrás da Audi por muito pouco, considerando as vendas de carros, sem contar com vans (comerciais leves), que a rival não produz. Ambas aumentaram as vendas em mais de 40% em relação a 2014.

Para analistas ouvidos pelo G1, esse resultado foi influenciado por uma mistura de novos produtos com estratégia de preços agressiva de ambas as marcas, além de expansão da rede de concessionários, ampliação de opções de financiamento, melhoria no pós-vendas com preços fixos de revisões e construção de fábricas - Audi e BMW também passaram a produzir no país. A próxima, em 2017, será a Jaguar Land Rover.

Preços e crise política

As quatro montadoras adotaram o discurso de que os carros feitos no Brasil não ficarão mais baratos do que quando eram importados. Além do baixo volume - a fábrica da Mercedes tem capacidade para 20 mil carros ao ano, menos da metade do que a marca vendeu em 2015 no país -, o dólar alto pressiona. "2016 é muito difícil de programar. Mais cedo ou mais tarde, (o dólar alto) fica no preço. Quando? Depende do mercado", diz Schiemer.

A Mercedes não revelou em quanto tempo pretende recuperar o investimento de "mais de R$ 600 milhões" para erguer a fábrica no interior de SP. E também não quis comparar o custo de produção que um mesmo modelo tem no país e no exterior.

"É muito difícil comparar, mas o Brasil tem uma logística extremamente cara e um sistema trabalhista que é um dos mais caros do mundo", afirmou Schiemer. "E, em geral, falta escala (volume de produção) para ter custos por unidade reduzidos."

Ao falar da crise polícia e econômica do país, o presidente da Mercedes tentou não tomar posições, mas afirmou que "o Brasil perdeu toda a sua credibilidade" perante investidores. "O melhor cenário não está à vista no curto prazo. O que precisa é retomar a credibilidade e depois fazer reformas", opinou. "O maior problema é o desajuste fiscal. (O investidor pensa) Vou receber meu dinheiro de volta? As contas públicas estão desajustadas. Após ajustá-las, é preciso estabiliza-las."

Segundo turno adiado

A marca, no entanto, reforça que a fábrica demonstra que tem planos a longo prazo para o país.

"Estamos aqui há 60 anos, já vimos muita coisa acontecer. Continuamos acreditando na força do Brasil", resumiu Markus Schäfer, do conselho mundial da Mercedes, responsável pela implantação da nova fábrica, ao ser perguntado se a crise forçou a montadora a fazer algum ajuste nos planos. "Seguimos otimistas, não estamos aqui para 1 ou 2 anos."

Schiemer, no entanto, afirmou que o início de um segundo turno, que começaria no ano que vem, quando a linha já terá, além do Classe C, o SUV GLA, foi adiado. "Agora não tem previsão", disse. Também não há planos de exportação, por ora. "Acordos bilaterais são importantes. O Brasil está muito desafasado em relação a outros países (em acordos comerciais)", declarou o executivo.

Peças chegam prontas da Alemanha (Foto: Luciana Oliveira/G1)

Próximas etapas

A Mercedes não especificou o número de fornecedores locais e nem quanto o Classe C tem de conteúdo nacional. "Estamos de acordo com o Inovar Auto", disse Schäfer, citando o conjunto de regras do governo federal que, se cumpridas, podem resultar em benefícios fiscais.

Entre essas regras está a de que os fabricantes de carros deverão realizar 6 das 12 etapas fabris necessárias no Brasil em ao menos 80% da produção. Inicialmente, a fábrica de Iracemápolis realiza apenas a montagem final dos carros. As partes da carroceria chegam prontas da Alemanha; o bloco do motor também vem da matriz, mas ele é montado no Brasil.

Ainda neste ano devem começar as etapas de "montagem bruta" da carroceria ("body shop") e de pintura. Schäfer afirmou que não haverá nenhum tipo de simplificação nos carros feitos no Brasil em relação aos produzidos fora: "Nossos carros terão a mesma qualidade".

Schäfer destacou ainda que a fábrica brasileira é a primeira da marca a ter capacidade de produzir tanto veículos com tração dianteira quanto traseira. E que é muito flexível, podendo receber diversas plataformas, "para carros compactos, SUVs", entre outros tipos. A montadora afirmou que, no entanto, ainda não há definição sobre um terceiro modelo "nacional" para a nova fábrica.

Lição dos anos 90

Com longa história na fabricação de caminhões e ônibus no Brasil, a Mercedes também já tinha produzido carros no país, nos anos 90. Na época, o modelo escolhido para a fabricação em Juiz de Fora (MG), onde a marca mantém uma fábrica de caminhões, era o Classe A, seu modelo de entrada.

"Era o produto errado, no momento errado", disse Schiemer. "Era muito sofisticado para a época, muito futurista, diferenciado. A ambição (da marca) também era alta demais."

Agora, afirmou o executivo, a nova fábrica tem "os produtos certos". "O Classe C é o carro mais longevo para o mercado brasileiro. Quando se pergunta de Mercedes para o brasileiro, ele fala do Classe C", explicou. O sedã está, atualmente, em sua quinta geração.

Bem mais recente, o GLA, lançado em setembro passado no país, responde à "onda de SUVs" no mundo e no Brasil, e já ganhou dois "parentes", o GLC (na verdade, o antigo GLK) e o GLE.

Utilitário GLA da Mercedes-Benz, que será produzido em Iracemápolis (Foto: Laila Braghero/G1)