Sábado, 5 de Abril de 2025
Ciência e Saúde
01/12/2022 07:43:00
Mesmo com avanços, Campo Grande registra baixa adesão à prevenção do HIV

Midiamax/LD

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Após 42 anos desde que se foi registrado o primeiro caso de HIV no Brasil – que culminou no surto de infecção em 1980 por falta de tratamentos eficazes e informação sobre contágio – pode-se dizer que o tratamento avançou muito graças aos investimentos científicos. Atualmente, medicamentos e métodos de prevenção são oferecidos gratuitamente pelo SUS em todo o país, inclusive em Mato Grosso do Sul. Recentes atualizações trouxeram ainda mais abrangência de acesso aos métodos, no entanto, Campo Grande não teve grande adesão e segue presa no eterno conservadorismo quando se fala de sexo, saúde e HIV.

Conforme pontuado pelo médico de família do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) de Campo Grande, Roberto Paulo Braz Junior, um dos grandes avanços da medicina é a simplificação do medicamento para o tratamento do vírus. A partir de 2022, a equipe médica foi autorizada a prescrever o uso de apenas dois comprimidos ao invés de três, como ocorria anteriormente.

“Essa simplificação traz menos toxicidade ao paciente porque você retira um medicamento. É recomendável para os pacientes que estão indetectáveis, com o tratamento regular há mais de um ano, quem nunca teve uma falha terapêutica”, explica o especialista.

O termo ‘indetectável’ diz respeito à sigla I=I, ou seja, quando o vírus do HIV está indetectável no organismo e intransmissível para outras pessoas

Ampliação do público para a PrEP Além do tratamento do HIV, o SUS também distribui medicamentos para a prevenção da infecção. Um deles é o PEP (profilaxia pós-exposição), medida de urgência para ser utilizada em situação de risco, existindo também profilaxia específica para o vírus da hepatite B e para outras infecções sexualmente transmissíveis. Assim, a PEP pode ser utilizada após violência sexual, relação sexual desprotegida, acidente ocupacional e demais situações de risco.

A pessoa deve iniciar o medicamento em até 72 horas e tomá-lo por 28 dias. A PEP funciona como uma 'pílula do dia seguinte', mas para prevenir o HIV.

“As pessoas têm medo de fazer o teste, continuam com vergonha de fazer, tem medo de serem julgadas, de usar a PrEP e se achar promíscuo. E não é isso. É uma proteção e uma prevenção a mais, além de ser um direito que cada um tem de estar cuidando da saúde”.

HIV não é Aids Isso mesmo, ter o vírus HIV no organismo não significa que esse paciente tenha Aids. O HIV (Human Immunodeficiency Virus) é o vírus que provoca a imunodeficiência humana.

Conforme a infecção pelo HIV avança, o sistema imunológico vai enfraquecendo até não conseguir mais combater outros agentes infecciosos. Quando isso acontece é que a pessoa desenvolve a Aids. Ou seja, a diferença entre HIV e Aids, é que HIV é o vírus que pode, ou não, provocar a Aids (Acquired Immune Deficiency Syndrome). Isso depende exclusivamente do tratamento.

Quando uma pessoa tem a característica do HIV, mas faz o adequado dos remédios, ela não desenvolve a doença e o vírus fica indetectável no organismo. Assim, ela não tem sintomas e nem transmite o HIV. Portanto, é um estigma muito grande acreditar que uma pessoa portadora do vírus é uma pessoa doente. O HIV, então, é uma condição crônica, igual a diabetes.

Sexo não é um problema Diante desse cenário, especialistas afirmam que portadores de HIV que estão em constante tratamento e acompanhamento, podem ter uma vida amorosa e sexual tranquila. Mesmo se a pessoa soropositiva fizer sexo sem camisinha, ela não transmite o vírus para o parceiro.

“A pessoa com HIV pode ter uma liberdade afetiva e sexual sem nenhuma restrição. E eu sempre falo para os meus pacientes que se alguma pessoa rejeitar ela por conta da sorologia, é um livramento”, afirma Roberto.

HIV em Campo Grande 2022 Segundo os dados do Sistema SINAN e SICLOM de Campo Grande, foram diagnosticados 2.625 casos de pessoas com HIV e 3.351 com diagnóstico de Aids na cidade entre 2000 e 23/11/2022. Nesse mesmo período, foram registrados 772 casos de abandono de tratamento.

Já em relação ao uso da PrEP, o sistema aponta que 1.204 pessoas iniciaram o uso do método entre 01/01/2018 e 31/10/2022. Desse total, 589 descontinuaram o tratamento, enquanto a cidade contém 615 usuários ativos no momento.

Vale ressaltar que os principais adeptos da PrEP são gays e HSH (homens que fazem sexo com homens) cis, o que representa o equivalente a 89,6%. Mulheres cis entram na 2ª posição, com 7,0%. A principal faixa etária é de 30 a 39 anos.

Números de Campo Grande ainda apontam que 59% dos usuários de PrEP relataram terem tomado todos os comprimidos na última dispensação; 5% relataram trocar sexo por dinheiro, objetos de valor, drogas, moradia e serviço; 76% relataram terem usado álcool ou outras drogas nos últimos três meses.

“49% dos usuários que iniciaram PrEP, descontinuaram o uso da profilaxia em algum momento”.

Para o médico do CTA, a baixa adesão ao método preventivo é um problema de saúde pública na cidade, visto que o medicamento só tem eficácia quando grande parte da população vulnerável estiver em uso do método.

Camisinha não deve ser descartada Apesar dos avanços em relação ao tratamento do vírus e também quanto às medidas de prevenção, a medicina não descarta o uso da camisinha para evitar outras IST’s, especialmente em pessoas que possuem múltiplos parceiros.

O que esperar do futuro? Os avanços da medicina prometem um futuro cada vez mais promissor ao tratamento de HIV. Segundo o médico de família do CTA, o Ministério da Saúde já comprou uma patente para produção de tratamento simplificado em apenas um comprimido.

“Também foi aprovado na Europa o uso de um medicamento injetável para tratamento de HIV de longa duração. Então, já tem terapias já sendo testadas, como injeção com duração de seis meses. É uma realidade um pouco distante pra gente, mas isso integra uma expectativa futura”, ressalta o especialista.

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