Domingo, 31 de Agosto de 2025
Comportamento
27/08/2025 08:30:00
O prazer pela incerteza: como funciona a cabeça de um viciado em jogo

UOL/PCS

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Em três dias, Amanda*, 56, do Recife, perdeu R$ 120 mil. O dinheiro era do marido, que confiou nela após vender a casa da família. Tudo foi parar em plataformas de apostas online. Um clique em um anúncio no Instagram em 2024 mudou a vida dela. "Coloquei R$ 20 e ganhei R$ 200."

O que parecia ganho fácil se transformou em um vício devastador que consumiu sua saúde e seu casamento de 40 anos.

Após o lucro fácil da primeira aposta, ela passou a perder dinheiro de forma recorrente. A euforia de recuperar as perdas a levou a apostar compulsivamente. "Cheguei a dever para quatro agiotas."

A situação ficou insustentável quando o marido vendeu o imóvel para comprar um caminhão e confiou o dinheiro à esposa. "Ele colocou o dinheiro na minha conta, mas em três dias perdi tudo jogando."

Histórias como a dela não são raras —e têm raízes profundas. A "cabeça" da pessoa viciada em jogo funciona de maneira complexa, envolvendo uma combinação de fatores neurobiológicos, psicológicos e comportamentais. Especialistas ressaltam: não é falta de caráter, e sim uma doença com mecanismos próprios no cérebro.

Segundo dados do Lenad 3 (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), realizado pelo Departamento de Psiquiatria da Unifesp, mais de um quarto da população brasileira com 14 anos ou mais (25,9%) já apostou alguma vez na vida, e 17,6% o fizeram no último ano, isso significa que, só em 2024, quase 28 milhões de brasileiros apostaram pelo menos uma vez.

Por que o risco é tão viciante?

O fascínio pelo jogo não está na certeza do ganho, mas na incerteza —é isso que excita e motiva o cérebro. Quando o jogo se torna um problema, falamos do transtorno do jogo, uma dependência comportamental reconhecida formalmente em manuais de diagnóstico psiquiátricos como o DSM-5 e a CID-11. Diferente do uso de substâncias, não envolve químicos, mas compartilha características como a perda de controle, tolerância e abstinência.

No cérebro, o sistema de recompensa ligado à dopamina fica hiperestimulado. Com isso, o desejo de jogar cresce, enquanto o prazer real diminui. A pessoa pode dar uma importância enorme a algo que já não é mais tão prazeroso e, eventualmente, se torna sofrido.

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